Este confinamento não dá com nada.

Este segundo confinamento não está a ser tão penoso como o da primavera de 2020. É Natal, andamos todos mais entusiasmados e distraídos com as festividades. Comemos mais e bebemos moderadamente, que isto de ter duas crianças à nossa conta, obriga-nos a ser mais responsáveis e eles ainda não têm força nem discrição de juízo para nos levar à cama ou ligar ao 112.

Com creche, ATL e escola fechados, fechámo-nos também… e assim continuamos. A trabalhar a partir de casa, a tentar cumprir os compromissos com os nossos clientes e a organizar atividades para que todos – pai, mãe, menino e menina – cruzem este confinamento da melhor forma possível e sem pegarmos de cabeça.

E a diferença principal entre os dois confinamentos, no que à ocupação do tempo diz respeito, reside precisamente aí: no menino e na menina. Mais concretamente no menino, embora a criatividade da menina se tenha exponenciado no último ano. Salve-se quem puder, é o que vos digo! Quanto a mim próprio, resigno-me, e apenas comento com os meus botões: aguenta-te sempre!

Desde março de 2020 até dezembro de 2021, ocorreu uma mudança que, sem que ele, conscientemente, se desse ou dê conta de tal, mudou a sua vida. Tornou-o mais autónomo, dando-lhe ferramentas e um poder que, nem em sonhos, tem a noção da sua verdadeira dimensão: o Jorge já sabe ler…

…e escrever.

Já não precisa de ajuda para procurar os seus programas nas plataformas de streaming ou no Youtube. Já anda à busca dos personagens preferidos, e dos jogos, nos motores de busca e na loja da Nintendo. Já cria os seus próprios jogos, com instruções escritas, numa complexidade que só a ginástica mental provocada pela leitura e pela matemática possibilitam, aliada ao hábito de ter de inventar brincadeiras com o que há à mão, seja um pau, uma pedra ou um monte de folhas secas.

A linguagem é outra e os assuntos, também. Já questiona. Já faz perguntas sobre temas que se julga não serem do seu interesse, mas que, afinal, remoem-lhe o juízo e o pensamento. “Porque é que quando dizem os casos do COVID, não dizem o nome das pessoas?” E lá lhe tentamos explicar que, basicamente, não temos nada a ver com a vida de cada um. “Então como é que as pessoas sabem?” Que sabem o quê?! “Que têm COVID!” Ah, ok! A dúvida era essa.

Depois há a preocupação com a alimentação. Indigna-se com a utilização de óleo e explica a roda dos alimentos para, a seguir, comer os chocolates todos que encontra em cima da mesa de Natal, os aperitivos e as batatas fritas. Quem nunca?… Se nós, adultos, enchemos a boca a ditar tratados de alimentação, comportamentos e intelectualidade para depois comermos que nem leitões em engorda e vermos, lermos e ouvirmos aqueles guilty pleasures que nunca, nem a ninguém ousaremos divulgar.

Tal como o Jorge, não damos conta do poder que temos pelo “simples” facto de sabermos ler e escrever. Pelo “simples” facto de termos acesso à informação, ao conhecimento e podermos discutir, opinar e ser contra tudo, só porque sim, até se chegar ao cúmulo de se ser negacionista. E, por não termos consciência disso, resignamo-nos e esperamos que os outros resolvam tudo por nós. Acabam por fazer o que querem…

Já faltam poucos dias para o reinício da escola, assim espero. Poucos dias para retomarem o caminho da aprendizagem, da socialização e do desenvolvimento das competências que os permitirão ser cidadãos ativos e autónomos. Deixem-nos ser autónomos. Deixem-nos pensar pela sua própria cabeça. Deixem-nos que sejam eles próprios, com a sua personalidade, com os seus gostos e interesses.

Faltam poucos dias para que este confinamento termine, para que a escola comece, assim espero. Graças a Deus! Já ninguém aguenta… benditos professores, benditas educadoras, bendito ATL. Não há dinheiro que vos pague!

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