Baseado no Processo Casa Pia.

Foi a partir do processo Casa Pia que todos passámos a dominar a linguagem dos tribunais, do ministério público, dos juízes, dos advogados, do supremo, da relação ou dos direitos do homem. Arguido, procurador, juiz, despacho de acusação, elementos de prova, escutas, ónus da prova, sentença, testemunha, trânsito em julgado, condenação, acórdão, prisão domiciliária, pulseira eletrónica, prisão efetiva, prisão suspensa, réu, instrução, investigação, prescrição, recurso, recurso, recurso, tornaram-se vocabulário familiar. Qualquer um de nós está (estava) apto a entrar por um julgamento adentro e botar sentença. Levante-se o réu! Tudo se fez acompanhar dos apitos dourados, da operação marquês, do caso BES, do BPN, do toupeira, tantos outros e, por fim, tudo sucumbiu num lugarejo da África do Sul, pátria-mãe da vuvuzela, uma prima muito afastada da zaragatoa, que, em comum, têm no seu ADN o solitário gene da estranheza do nome.

E por falar em ADN! Alguém assistiu ao debate dos sem assento? Do princípio ao fim? Mesmo depois de ter faltado a luz? Insisto: do princípio ao fim? Eu não. Tenho a profunda convicção que só mesmo o Carlos Daniel terá estado a acompanhar, com atenção, aquilo que os debatentes diziam. Do que vi – muito pouco, repito – tem ali um ou dois com discurso estruturado e com conteúdo. Refiro-me, obviamente, ao universo dos que estavam em estúdio, no Capitólio sem invasão. Quanto ao que optou pelo teletrabalho, ponho-me a imaginar o que será uma reunião para discutir o programa eleitoral do chamado partido. As propostas. Os argumentos. As fontes… Não tem explicação. Até o outro, aquele cujo nome não deve ser pronunciado, parece um menino de coro.

Tal como com a justiça, agora todos dominamos a linguagem médica e da ciência. Não vou elencar substantivos médicos, epidemiológicos ou vacinais. Vá lá, só dois. Pronto, já que insistem, aqui vai: comorbilidades, que é magnífico e muito fácil de dizer, e a já mencionada zaragatoa. A birreferência no texto a esta última não é acidental. Traz água no bico e um pedido ao senhor secretário da saúde e às unidades de saúde de ilha, particularmente ao centro de saúde da Praia. Por favor, rogo-vos, peço-vos, por tudo quanto mais acreditarem e amais: substituam o teste de zaragatoa pelo teste de saliva em crianças. A minha Amélia já levou com duas zaragatoas em quatro dias, foi um filme para conseguirem fazer o teste, e estou convencido que, na próxima, não haverá condições para fazer teste… nos seus cinco anos ela diz: não faço mais nenhum! É uma violência.

Daqui por uma semana e pouco, vamos ser chamados a votar. Na rua, nas rotundas, à beira dos caminhos, nos spots habituais, já nasceram os cartazes com as feições dos candidatos a deputados. Não vou tecer quaisquer comentários relativamente a cada um deles, individualmente. Mas, aqui na Terceira, uma constância me salta à vista: à exceção do Bloco de Esquerda, as mulheres foram, simplesmente, banidas. É a chamada festa da mangueira onde senhora não entra. Sinais dos tempos? Ou não há maneira de isto andar para a frente?!

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