A(s) duna(s) da Riviera…

Ainda gostava de saber que norma de exceção permite a construção do bar da praia da Riviera. A sério! Ao longo da minha carreira tenho assistido a tanta proibição, a tanta referência ao PDM, ao POOC, ao domínio público marítimo, ao ambiente, às zonas de proteção, a tanta e tanta coisa para impedir a construção de outras tantas coisas que fico de embasbacado quando ouço dizer que todos os pareceres são positivos. Acredito, obviamente, na palavra da senhora presidente da câmara, até porque os pareceres não foram emitidos por ela. Contudo, reafirmo a minha desconfiança em relação à conformidade dos próprios pareceres com a regulamentação em vigor.

Em todo o caso, consideremos que os ditos pareceres são, de facto, favoráveis e de acordo com a lei. Até podem ser. A lei permite, a lei deixa, nenhum tribunal o vai impedir. Partamos desse pressuposto. Agora, façamos outro exercício. Faz algum sentido aquela construção, ali, naqueles moldes, com aquela volumetria, destruindo a paisagem, a duna e colocando em risco a própria proteção daquela zona? Claro que não faz. Claro que faz falta um bar, um snack-bar ou um restaurante. Claro que fazem falta balneários de apoio à praia ou instalações sanitárias. Mas é preciso bom-senso. É preciso olhar para o espaço com olhos de ver e querer proteger o pouco que já vai sobrando do extenso areal que deu o nome à cidade.

Felizmente, já estamos em 2022. Ano em que o conhecimento técnico e científico já permite encontrar soluções que permitem a convivência saudável entre as necessidades do ser humano e o espaço que o envolve. Ano em que a consciência ambiental e de proteção da natureza já são ponto assente, já fazem parte da nossa vivência diária e onde a resistência constitui retrocesso civilizacional. A Praia tem de andar para a frente. Agarrar os modelos do futuro e das boas práticas ambientais, deixando para trás, de uma vez por todas, conceitos e hábitos dos anos oitenta e noventa de século passado que, à época, faziam todo o sentido, mas que, agora, com o conhecimento entretanto adquirido, são obsoletos, antiquados e característicos de um certo atraso civilizacional e incapacidade de progredir.

Que cidade queremos deixar aos nossos filhos e netos? Que ilha queremos que herdem? Que legado queremos deixar para o futuro? Já levo, ainda levo, cinquenta anos de vida. À exceção dos tempos em que estudei em Lisboa e dos dois ou três anos que, em muito criança, acompanhei os meus pais na Guiné-Bissau, sempre vivi nesta terra. Recordo-me dos extensos areais da Praia, da inexistência do porto comercial, da inexistência da marina, da marginal, da lixeira do paul e da rua de Jesus aberta ao trânsito. Recordo-me, também, da construção do porto e da praia de sargentos passar a ter ondas pequenas, quando comparado com o que era antes. Mas a ilha e a cidade precisavam de um porto comercial e esse era o preço a pagar. Pagou-se e adaptamo-nos às “novas” praias. Se valeu a pena? Terá valido. Apesar de tudo, o porto serve-nos. Recordo-me da construção da marina, das dragagens constantes e da praia grande deixar de ser tão grande. Requalificou-se toda aquela zona da cidade, a cidade prometia ficar mais cosmopolita. Se foi uma obra? Em parte, sim. Talvez pensada à pressa, mas construiu-se cidade e a Praia passou a fazer parte das rotas de recreio do Atlântico. Depois veio a requalificação do paul, provavelmente a melhor intervenção ambiental feita no concelho. Eliminou-se a lixeira e devolveu-se um espaço de excelência à cidade. Longe de estar aproveitado, o parque ambiental do paul é um bom exemplo. Quanto ao passeio marginal, embora tenha valorizado e criado uma circulação para peões em torno de toda a baía, também teria ganho se se tivesse perdido mais algum tempo a pensá-lo. Fazer-lhe correções, tal como no caso da marina, é demasiado oneroso, considerando os aspetos técnicos. Reabrir a rua de Jesus à circulação automóvel é também andar no sentido inverso. A cidade não precisa de carros, a cidade precisa de pessoas. Carros e pessoas não são sinónimos.

Ainda estamos a tempo de salvar a Riviera, de recolocar a Praia no caminho do século XXI. De fazer dela uma cidade moderna, com boas práticas ambientais e de preservação da paisagem e do seu património ecológico. Já pouco vai restando do nosso areal. Basta compararmos fotografias de há quarenta anos com a realidade existente. A lei pode permitir fazerem-se uma série de coisas, até de atropelos ambientais. Mas há um património a acautelar, uma identidade a manter e a cultivar. E é aí que entra a política… Aos políticos cabe o poder da decisão, de definir que herança querem deixar às futuras gerações de praienses. Senhora presidente, está nas suas mãos! Será o seu nome que ficará para sempre ligado à decisão tomada…

2 pensamentos sobre “A(s) duna(s) da Riviera…

  1. Um texto de opinião realista e com conhecimento de causa! Estejam os intervenientes disponíveis, para a aceitar com humildade e bom senso!

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