As eleições de domingo.

Ninguém me perdoaria se, hoje, esta semana, não escrevesse sobre as eleições do passado domingo. Iriam dizer que estava ressabiado pelo PSD ter perdido, que tinha mau perder, blá… blá… blá…, a “converseta” do costume de quem está do lado dos vencedores. No meu caso, ainda se dá a particularidade de ter votado em três partidos ao mesmo tempo, em que um perde, o outro desaparece e o terceiro nem sequer estava a “concurso”, só mesmo cá.

Levo a coisa na desportiva, na “democrática”. Não vejo as eleições como uma partida de futebol, em que um ganha e o outro perde, nem como o PCP, em que todos perdem menos ele, e por culpa de todos, menos do próprio. Este ano, parte deste dogma foi exceção. Assumiram a pesada derrota, mas a culpa foi do Costa. Coisa parecida sucedeu ao Bloco de Esquerda que, embora assumidos os resultados, a culpa foi do André e dos racistas. Estes indivíduos podem ter culpa de muita coisa, têm que estar debaixo de olho, mas, convenhamos, acusá-los de responsáveis pelo mau resultado de Catarina Martins, até a mim me incomoda.

Pior do que isto, só mesmo culpar o povo. Responsabilizá-lo pelo mau resultado de Rio. É verdade, o eleitorado é que é responsável, foi ele quem votou. Mas, ouvir a senhora loira de maçãs do rosto salientes dizer que foi o povo português que falhou porque preferiu acreditar na mentira, faz-me sentir envergonhado, enquanto militante do PSD e cidadão que acredita na democracia. Se a mensagem do PSD não passou, a culpa não será seguramente das pessoas, mas sim da mensagem ou do mensageiro ou, quem sabe, no limite, na língua em que foi transmitida. Serão bem poucos os portugueses, uma elitista minoria, que compreenderão alemão. Estas atitudes, infelizmente, traduzem uma forma e um estilo que não se quer. Arrogância seria a classificação mais acertada, mas não me ficaria bem usá-la.

Surpresa, pela positiva, foi a campanha da Iniciativa Liberal. Confesso que, de início, tive muitas reservas. Desconfiei, inclusivamente, da capacidade do Pedro Ferreira para assumir tal responsabilidade. Não foi eleito, mas está de parabéns. Sem populismo, sem chavascal, as propostas e as críticas foram cirúrgicas e pertinentes. O partido de Cotrim, também nos Açores, apresentou-se com a dignidade e a modernidade destes novos tempos. Há ali privado a mais para o meu gosto, mas o discurso está lá, as propostas estão lá e o discurso é atual. O PSD que se cuide e olhe para o que aconteceu com o seu parceiro de coligação.

A solução socialista não é seguramente aquela que o país precisa, mas foi aquela que o país escolheu. Concordemos ou não, se o povo decidiu, está decidido e, agora, é esperar que António Costa nos governe da melhor forma, conseguindo que Portugal saia desta crise o mais rapidamente possível e que olhe, também, pelos Açores e pelo seu futuro. Se o objetivo do Partido Socialista, quando provocou esta crise, era livrar-se da esquerda mais radical, conseguiu. E ainda bem para nós todos. Apesar de tudo, antes uma maioria absoluta do PS que um governo a ceder permanentemente às exigências do PCP e do BE.

Transpondo tudo isto para a nossa terrinha – eu sei que são eleições diferentes – é bom que a atual governação dos Açores aprenda alguma coisa com o que aconteceu no passado domingo: o Chega é um ativo tóxico; as permanentes guerrilhas internas não levam a lado nenhum; a busca por protagonismos individuais, muito menos; o discurso e as atitudes ultraconservadores são limitativos do crescimento.

Os vinte e quatro anos de governação socialista não podem ser vistos simplesmente como um interregno na governação social-democrata iniciada em 1976, mas antes como a separação entre duas eras distintas na forma, no estilo de exercer o poder e até dos protagonistas. Não basta dizer-se que se quer fazer diferente, é preciso fazer-se diferente. Para já, ainda subsistem dúvidas.

Nota: o atentado à praia da Riviera prossegue… e parece não interessar a ninguém.

Um pensamento sobre “As eleições de domingo.

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