O cortador de relvas: um legado.

Esta manhã, enquanto caminhava ao som de música de mexer as pernas, pensava para com os botões do meu telemóvel, o on/off e o do volume: quem tivesse assinado com a Câmara da Praia um contrato para cortar relva! 50.000 euros por três meses, não era coisa de se deitar fora. Anda um gajo a estudar, a esfalfar-se, a tentar desenrascar-se para que no fim do mês consiga pagar as suas contas e a câmara da Praia, a milionária autarquia da gestão reinventada, contrata um jardineiro a preço de ouro para cortas a relva do município. 50.344 bazucas em três meses. Qualquer coisa como 16.781,33(3)€ por mês. A par deste valor pornográfico, só comparável aos múltiplos estudos encomendados e dos quais não se vislumbraram quaisquer resultados, deve o estimado leitor recordar-se que a própria autarquia tem pessoal para realizar serviços de jardinagem, incluindo o corte de relvas. E até o faz bem feitinho, quando para tal a câmara o necessite. Perguntas: que contrato é este? Com quem foi? Que reais serviços foram prestados? A câmara da Praia talvez não precise só de uma auditoria, quem sabe se uma investigação por parte da polícia judiciária não fosse mais aconselhável?! Com tanto esbanjamento e dúvidas, não há como não suspeitar.

Já todos percebemos que a herança deixada pela anterior gestão da autarquia praiense é tudo menos aquilo que se dizia ser. Melhor dizendo: tudo aquilo que Tibério Dinis e o partido que o sustentava e o deixou cair diziam ser. Pior dizendo: tudo aquilo que os seus sucessores continuam a defender, num estado de negação que esbarra com a dura realidade, a falência e a extrema dificuldade em fazer-se o que quer que seja no concelho. As dívidas são muitas. As coisas por explicar, também. Muitos milhões. Os compromissos são mais que as mães e o dinheiro escapuliu-se sabe-se lá por onde, para onde. Em bom rigor ele não desapareceu. Em bom rigor ele nunca existiu.

Nos primórdios do consulado socialista na Praia, ouvi vezes sem conta o discurso da irresponsabilidade, também da dívida, do rigor na isenção e na repetição tipo mantra ou ladainha do “quem paga é que deve ter o nome na placa”. Muitas placas foram destruídas e substituídas por outras com o nome do novo edil. A dinheirama que se gastou em azulejos só para que se repusesse a sua verdade! Salvaram-se o José Silvestre Ribeiro e a Maria da Fonte. Não houve tempo para tanto e o regresso foi comido pela traça. Agora, os tempos repetem-se e as obras estão por pagar, mesmo depois de muitas inaugurações e beberetes com croquetes e verdelho. As placas descerradas e afixadas por esse concelho têm o nome do autor do calote, deveriam também ter o montante da dívida.

Ascende a 35 milhões de euros o passivo da autarquia, incluindo-se a Cooperativa Praia Cultural e a Praia Ambiente. A juntar a isto, foram assumidos compromissos financeiros a serem suportados, na sua totalidade, pelo orçamento municipal. Não sou daqueles que demonizam o recurso a empréstimos bancários. Sou daqueles que tiveram de recorrer à banca para construir a sua própria casa e não me envergonho disso. Sei que sem financiamento bancário muitos investimentos não são passíveis de serem realizados e que os orçamentos municipais, por si só, não comportam a realização de tais projetos. Contudo, é importante que a autarquia, tal como nós, tenha condições para pagar os empréstimos e que isso não hipoteque investimentos futuros considerados essenciais. É preciso que se definam prioridades claras, que se faça planeamento, que se faça uma gestão rigorosa e transparente. Isto não significa, no entanto, que o mundo pare, que o concelho viva à mingua, que se corte a direito e retire a esperança às pessoas. Que se aceite o inaceitável só porque não há dinheiro. Seria dar razão a quem a não tem. Tem de haver mais vida para além da dívida.

O desconhecido homem das relvas conseguiu da autarquia praiense o chorudo contrato de 50.000 mocas! Para que tal acontecesse, outros investimentos terão ficado por fazer ou por pagar na lógica habitual de que “alguém há de pagar”. Infelizmente, os pagantes são sempre os mesmos, enquanto os infratores seguem a sua vida, isentos de culpas formais, portadores de uma liberdade da dimensão da sua consciência. Pobre consciência…

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