Bico de obra.

O Cristiano é bom de mãos. Faz trabalhos de pintura, é um perfecionista no pladur e no papel de parede, assenta azulejos e louças de casa de banho como ninguém e arranja o que for preciso, desde que não tenha de passar recibo. Ele e a sua equipa de dois ou três amigos, conforme a dimensão do trabalho, remodelam uma casa em pouco mais que um fim de semana. Fazem-no barato. O Cristiano está no fundo de desemprego, o Leonel e o Márcio no rendimento social de inserção. Um extra que compensa. A Luciana, dois anos mais nova que o … Continuar a ler Bico de obra.

Armar Barraca.

Há um acampamento ao estilo cigano a nascer junto ao estádio municipal da Praia. Aquilo que começou por ser uma ou duas roulottes/tascas de comes e bebes, rapidamente apareceu apetrechado de cadeiras e mesas, em jeito de esplanada, com frequência e afluência razoáveis, dando àquela zona da cidade uma cor e movimento dignos das festas que não temos tido. Uma oportunidade para ajuntamentos e convívio, tão desejados que têm sido nestes tempos de jejum e abstinência colmatados pelos pecadilhos à porta fechada. Virtudes públicas, vícios privados, é uma expressão tão antiga como o faz o que eu digo, não faças … Continuar a ler Armar Barraca.

Here comes the sun.

A máscara voltou a ser um incómodo. Em bom rigor, nunca foi uma coisa que nos deixasse confortáveis. Mas, a necessidade do seu uso e o hábito criado, fez com que passasse a ser algo com o qual começámos a lidar com a normalidade agora chamada de nova. Contudo, com o desconfinamento a ser aplicado a cada vez mais setores da nossa vida em sociedade, o seu uso tornou-se intermitente e, como tal, umas vezes usamos máscara, outras não, outras não sabemos se sim ou não e, outras ainda, não percebemos a necessidade, tantas são as contradições. Daí o incómodo, … Continuar a ler Here comes the sun.

E não nos deixeis cair em tentação…

Desconhecia por completo o significado da palavra “anátema” da primeira que a vi. Como haveria de conhecer, se era a primeira vez? Estava grafada na capa de um livro, numa das prateleiras da Loja do Adriano, que eu frequentava amiúde, só para poder estar no meio dos livros, conhecê-los melhor e tomar nota mental dos autores e dos títulos. Esta palavra estranha, mas de sonoridade curiosa, era acompanhada por uma ilustração pouco convencional de temática que não me era familiar: um punho erguido de látex preto, segurando um crucifixo, e de unhas pintadas de vermelho – RAL3020. A imagem era … Continuar a ler E não nos deixeis cair em tentação…

Há uma revolução a fazer na cultura.

Há uma necessidade urgente de o salto cultural ser dado nos Açores. Uma espécie de revolução cultural onde o passado é respeitado e preservado, mas onde o futuro deverá estar presente. Arriscar novas linguagens, novos públicos, seguindo novos modelos e formas de arte. Em suma, deixarmos de ser os conservadores do costume, a que nos habituámos a ser, e olhar em frente, acompanhando o progresso civilizacional e as tendências da modernidade deste século que, embora iniciado há duas décadas, tarda em afirmar-se. É uma generalização, eu sei. Felizmente, aqui e ali, mais ali do que aqui, muitos são aqueles que, … Continuar a ler Há uma revolução a fazer na cultura.

Jogos de Calamares, Chicão e Toiros.

Calamares ou lulas é tudo mais ou menos a mesma coisa. Aquela lulinha frita, panada, servida como entrada, que custa os olhos da cara, habitualmente é apresentada nos menus dos restaurantes como “calamares fritos”. É uma forma de elevar o estatuto do molusco, justificando o preço. Já se os bichos forem grelhados, cozidos ou salteados ao alho, passam a ser conhecidos como lulas, mesmo tratando-se de uma cataplana ou uma portentosa caldeirada. Mas, nem por isso, o preço baixa. É claro que há ainda o choco frito, mas não quero introduzir já o assunto Chicão, até porque não há histórico … Continuar a ler Jogos de Calamares, Chicão e Toiros.

Sulfato de aerossóis das areias do vulcão do Saara.

Existem discussões deveras interessantes, mesmo que uma pessoa não perceba patavina daquilo que estão a dizer. Na semana passada, a ilha Terceira acordou envolta por uma névoa que lhe era estranha. Uma espécie de nevoeiro baixo que dificultava a visibilidade, mas que proporcionaria uma multiplicação de fotografias nas redes sociais, agora sem filtros, até porque a névoa fazia esse papel. Percebia-se não se tratar de nevoeiro. Embora leigos nos temas da atmosfera do clima, em outros somos todos especialistas. Começaram a aventar-se hipóteses: cinzas do vulcão das Canárias, de La Palma, não de Las Palmas; areias do deserto do Saara … Continuar a ler Sulfato de aerossóis das areias do vulcão do Saara.

O que é que o Marco Paulo tem a ver com isto?

Existirá escondido no nosso cérebro um sensor especializado em detetar pequenas coisas, mas com capacidade de nos provocar grandes emoções. Não gosto do outono. No passado domingo, enquanto passava os canais da box, cruzei-me com um programa onde Marco Paulo, o dos dois amores, conversava com Ágata, a do sai da minha vida, e se preparava para começar a cantar o maravilhoso coração maravilhoso. O tal sensor bloqueou-me o dedo no comando que se preparava para saltar de canal. Ouvi a música do princípio ao fim e dei por mim a cantarolá-la e a vivê-la como se estivesse a assistir … Continuar a ler O que é que o Marco Paulo tem a ver com isto?

Os pendentes.

Sejam militantes, sócios, irmãos, independentes, dependentes ou pendentes para cá e para lá, ao sabor das oportunas fidelidades do momento, renegadas ao primeiro embate ou frustração, o próximo domingo será deles. De todos. Dos por convicção, dos por conveniência. Dos que não precisam de nada disto, dos que dizem não precisar disto para nada, dos que têm de orientar a sua vidinha, dos que são obrigados a pagar faturas e favores antigos, quer estejam no prazo de validade ou já tenham prescrito. Alguém lhes relembrará ter havido compromisso antigo com créditos futuros. Vidas e carreiras construídas sob e à custa … Continuar a ler Os pendentes.