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rua de jesus na califórnia

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A Rua de Jesus agora chega mais longe e noutras plataformas.

Ontem, pela primeira vez, a crónica semanal foi transmitida via rádio para as comunidades açorianas radicadas na Califórnia através da Radio Portugal USA. Agora, semanalmente, nas tardes de sábado, esta Rua de Jesus fará a ponte entre o nosso Atlântico e os nossos compatriotas que vivem banhados pelo imenso Pacífico.

Obrigado pela oportunidade e por mais este desafio!

festival de sopas

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O dia era de Sol, mas a cidade continuava vazia. Tinha mais quatro ou cinco pessoas a circularem pela rua o que não era propriamente uma multidão. Aproveitei a oportunidade para falar com algumas pessoas, algumas delas comerciantes, e perguntar-lhes o que pensavam sobre aquele estado de coisas. Ninguém me soube apontar caminhos ou soluções. “Isto está uma desgraça, nunca se viu nada assim.” De facto! Apesar da retoma, a Praia não consegue descolar. Procuram-se culpados e alguém me diz que depois do sismo é que se deu um grande salto. As pessoas de Angra vinham cá acima às compras. Na altura, “coitados”, não tinham nada lá em baixo… Por essa altura a Praia tornou-se cidade e com essa distinção, a Praia tornou-se pujante. Só que isso já lá vai. Eram outros tempos, outro contexto, outras catástrofes.

Não há gente. É esse o sentimento mais frequente que existe por entre os habitantes da cidade e do concelho. Em 2011, de acordo com os Censos desse ano, residiam no concelho da Praia da Vitória 21086 pessoas. Num dia “normal”, em simultâneo, não circularão mais de 20 pessoas na rua de Jesus, isto para ser otimista. Onde andam todas as restantes? Que cataclismo foi este que afastou os praienses da sua cidade? Terá sido a descentralização desenfreada de serviços que fazem com que as pessoas não tenham de se deslocar à cidade e nela fazerem vida? A redução significativa da utilização de transportes públicos e o seu afastamento das praças principais? Ou a alegada urbanização da população que acha que é mais moderno comprar on-line? Infelizmente, no entanto, essa transformação de rural em urbano não se deu a todos os níveis, particularmente nos hábitos sociais.

A cidade é a imagem dos seus habitantes. Persistimos em chamar cidade à Praia porque gostamos muito dela e sabemos que é um ótimo lugar para viver. Contudo, temos noção que de cidade já só tem o nome. Falta-lhe a dinâmica, a urbanidade e a centralidade que uma cidade sede de concelho deverá ter. No período de pré-campanha eleitoral das autárquicas do ano passado desafiei as forças partidárias envolvidas a responderem à questão: “que centralidade se quer para a Praia?”. Ninguém respondeu ao desafio. Que pretensão a minha! Que ingénuo fui! Alguma vez os partidos políticos iriam responder a um simples cidadão com eu? Nunca! Principalmente quando a questão os obriga a pensar para além do imediato. A Praia não pode continuar a ser gerida para o já, para as questões pontuais muitas vezes sem quaisquer repercussões no futuro. Não pode ser gerida como uma mercearia em jeito de deve e haver sem ter em consideração que nela vivem pessoas e que essas pessoas têm filhos e que nem todas dependem dos resultados eleitorais. É preciso sabermos que terra queremos seja a nossa daqui por vinte anos. Qual a sua missão?

John F. Kennedy, em 1961, no seu discurso de tomada de posse, desafiava os americanos a fazerem algo pela sua terra. A frase é célebre e ficou para a História: “não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que tu podes fazer pelo teu país”.  Nós que tanto gostamos dos americanos (Donald Trump é só um incidente) talvez devamos olhar para ela – a frase – e refletir. Que temos nós feito para que a Praia saia do marasmo em que se encontra? Não tem gente? Não, não tem… e nós, ao menos, fazemos lá compras? Vamos aos cafés? Aos restaurantes? Talvez não. Nem sequer andamos na rua para baixo e para cima a polir calçada ao não ser que haja festival de sopas…

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

A fotografia foi retirada da página do programa Vitória.

sair do armário

Não consigo compreender esta mania de receber turistas com ranchos folclóricos ou grupos de homens vestidos de preto e chapéu a cantarem o pezinho. Tenho reparado que, desde que a Praia começou a receber navios de cruzeiro, esta cidade que sobrevive sobranceira ao mar e de costas para ele voltadas, teima em se agarrar ao passado e nele permanecer. Temos medo de ser genuínos e de inovar. Receamos mostrar quem realmente somos e a nossa capacidade criativa. Gostamos de transmitir a imagem que somos um povo simples, conservador, com aquele cheiro bafiento e salazarento de quem tem medo do progresso e de se abrir ao mundo. Aliás, é no Estado Novo que proliferam por todo o país este tipo de animação popular com o objetivo único de criar uma consciência nacionalista e transmitir a imagem romântica de que os antigos, pela vida simples que levavam, eram mais felizes do que nós. Não é por acaso que, num mesmo grupo, se misturam ricos e pobres em que os primeiros vestem os seus melhores trajos para conviverem “democraticamente” com os seus criados que, por sua vez, vivem alegres e contentes por serem trabalhadores a passar fome, mas vestidos de roupa imaculadamente branca como só o povo que trabalha a terra de Sol a Sol consegue ter. Isto não é verdade. A realidade não é esta. O mundo, o nosso mundo, não é assim. Infelizmente, é a imagem que continuamos a querer transmitir de nós próprios. E se dúvidas existem em relação a isto, basta olhar para os mais vistosos, ricos e alegres grupos folclóricos do mundo e perceber de onde vêm e que tipo de regimes existem ou existiam nos países de origem a quando da sua criação. Aliás, nem é preciso ir para longe, é só olhar para a nossa realidade local e vermos quando se deu o aumento exponencial do nascimento deste tipo de associações ou quando os apoios financeiros se tornaram uma prioridade na ação política.

Porque razão não mostramos a nossa realidade? A verdade. Porque razão gostamos tanto de mostrar aos outros uma coisa que não somos? Temos vergonha da Praia do século XXI? Do que hoje por cá se faz? Ou temos necessidade de criar esta fantasia para cruzeirista ver e pensarmos que isto é sempre assim? Enganarmo-nos a nós próprios? Porque razão algumas lojas só abrem em dia de cruzeiro ou montam banquinhas na banda de fora? Porque razão só os turistas de cruzeiro têm direito a ser animados e entretidos? É para esconder que nem sequer temos um museu para visitar? Uma galeria de arte? É para nos esquecermos que não temos como mostrar e divulgar a nossa História e o nosso passado – esse sim verdadeiro – sem ser numa pequena cerimónia a cada 11 de agosto com a qual os praienses nem se identificam?

Quem nos visita fica com a impressão de que não evoluímos culturalmente. Parece que não se faz música a não ser a charamba ou o pezinho. Que não existem artistas plásticos nas mais variadas disciplinas ou que o artesanato não é mais do que o alguidar de alcatra ou os aventais para garrafas de licor. Que não temos capacidade inventiva e criativa que nos torne diferentes e únicos nesta amalgama concorrencial em que se tornaram os Açores na captação de turistas. Se formos iguais aos outros, somos só mais uns. E nesse campeonato, já se percebeu, os outros nãos estão a dormir.

Sempre que escrevo um artigo como este é usual fazerem-me uma pergunta. É sempre a mesma. E qual a receita?! A receita também é só uma: ter coragem para ser diferente e assumir essa diferença. Também aqui é preciso não ter medo de sair do armário.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

Fotografia: Câmara Municipal da Praia da Vitória

la casa de papel

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Li algures que um dos fatores determinantes para o sucesso de “La Casa de Papel” é a originalidade do argumento. Até aqui, nada de novo. É normal que assim seja. Contudo, este argumento tem características especiais, os personagens são de uma riqueza estonteante e diversificada fazendo com que o espetador se apaixone por eles. O mesmo artigo acrescentava que um dos desafios de quem assiste à série consiste em encontrar o personagem com quem se identifica numa espécie de alter ego criminoso. Em conversa de almoço, os meus parceiros de refeição, dizem-me que não é bem assim, que não se identificam com ninguém. Não tenho qualquer dúvida que se um dia enveredar por uma carreira de produção de dinheiro – hipótese bastante remota – estaria bem no papel do Professor. Não seria fácil. Primeiro teria que encontrar um pai da mesma estirpe para me ensinar a arte de gizar tão perfeito plano e depois teria que encontrar a equipa. Nada que não se conseguisse nas redes sociais…

Ainda não vi a segunda parte. Mas a interpretação do Bella Ciao torna épico o momento que antecede o intervalo. Contra o invasor… resistir!

coroada de espinhos

O crescimento é lento. Por isso, demorarão alguns anos para que a minha parede de pedra fique coberta com esta planta verde que consegue sobreviver com a humidade existente no ar. Tecnicamente é uma Tillandsia aeranthos, cravo-do-ar para os amigos, e existe em abundância por estas terras açoreanas onde humidade é o que não falta. Hoje está sol! Um dia bom para apreciar estas plantas aéreas e vê-las crescer… se conseguirem!

o prazer de comer em família

Na senda dos restaurantes/casas de pasto, hoje, em dia de aniversário, chegámos à Taberna do Roberto. Um luxo! O atum assado no forno a lenha é de comer e chorar por mais. O cabrito assado, bem, o cabrito assado comeu-se depois do atum e já havia pouco espaço. Tal desperdício! Lá vamos ter que o levar para casa e comer amanhã. Amanhã não que é Sexta-feira Santa. Depois de amanhã. E isto tudo bem regado e na companhia da família mais próxima. É na Grota do Medo. Mas não tenham receio, vale a pena.

chegou a fatura da água

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29,62€! Nada de extraordinário se estivéssemos a falar de uma habitação com elevado consumo desse bem precioso. Acontece que esta fatura não diz respeito a uma casa de moradia, mas sim a um estabelecimento de serviços classificado na Praia Ambiente como “indústria/comércio”.

O consumo de água propriamente dito é de 1,93€ gasto nas descargas do autoclismo e de cada vez que se enche a máquina do café. Destinados a resíduos urbanos estão uns módicos 13,53€ que correspondem à produção industrial de lixo que, mensalmente, servirá para encher, no máximo, um a dois sacos de asa daqueles que se pagam a quatro cêntimos nas compras do Modelo ou do Guarita. A somar a isto tudo lá vão mais 13,39€ em taxas.

Resumindo, o valor da água consumida propriamente dita corresponde a 6,7% do valor total da conta… da água!

Isto tudo porque nós somos uma empresa e, nesta terra, ser empresário significa que estamos todos ao nível do Belmiro de Azevedo ou do Ricardo Espírito Santo ou dos Bensaúde. Não estamos! Muitos de nós, nem o ordenado mínimo consegue tirar para si.

Não é com discursos e tarifários destes que se apoia o autoemprego e as microempresas. É com ações e, essas, tardam em ser implementadas. E que tal reduzir os valores dos resíduos na fatura da água? Só para começar.

assumo, sou bairrista

Tudo serve de justificação para se retirarem serviços à Terceira. É a baixa ocupação dos voos, a dimensão do mercado, a falta de escala. Tudo serve para centralizar serviços. É a necessidade de dinamizar a economia, de se criar emprego ou porque dinamizar a economia “aqui”, significa dinamizar a economia do conjunto. Balelas. Engodo. Centralismo. Bairrismo. Isso sim é bairrismo. Diria mesmo, imperialismo. O problema será outro. Não é necessário investir na Terceira porque, faça o que se fizer, sejam quais forem os candidatos, podia até ser o António da Casa da Ribeira (que Deus o tenha num bom lugar) e o resultado está garantido… na mesma. E eles nem reclamam.

A verdade é que a alternativa não é melhor. E viu-se agora no caso da supressão da ligação Terceira-Porto realizada pela transportadora aérea regional. Ao invés de se defender a permanência dessa rota a partir das Lajes e de se reivindicarem outras, preferiu-se atacar o mensageiro e ridicularizá-lo. No caso, a deputada Mónica Oliveira. É mais fácil. Não estou a defender a senhora deputada, até porque prestou um mau serviço à ilha priorizando a defesa do partido político pelo qual foi eleita. Compreende-se. No final de contas, é o que todos, ou quase todos, fazem. E se não o fazem, bem podem dizer adeus a um lugar na próxima lista e à reeleição. Não acontece só no partido da maioria e é por isso que se prefere atacar as pessoas em vez das suas ideias. Não há lugar para todos.

O centralismo geográfico e partidário é uma realidade indesmentível e à vista de todos. Não haverá açoriano, incluindo os terceirenses, que não ache que para se ser candidato a presidente do governo regional tem de se ser de São Miguel. É factual.

Os Açores e o seu sistema político correm um sério risco de se desagregarem. É um exagero, eu sei, mas a realidade diária prova que o que temos não nos está a servir. O poder foi transferido de Lisboa para Ponta Delgada e isso está a fazer com que as restantes oito ilhas estejam a ser tratadas como periferias. A sua população não justifica grandes investimentos públicos. Não faz sentido os passageiros entrarem pela Terceira ou pela Horta ou pelo Pico ou por Santa Maria se a maioria das pessoas vive em São Miguel e se é nesta ilha que a maior capacidade hoteleira está instalada. Não faz sentido criar-se uma plataforma logística na Praia da Vitória porque o maior volume de mercadorias não se destina à Terceira. Não faz sentido transferirem-se as operações da SATA para as Lajes porque… porque não faz sentido transferir-se o que quer que seja para outra ilha mesmo que isso seja única e exclusivamente uma opção política.

A deputada Mónica Oliveira defendeu o seu partido. Também não estranho que tenha sido ela e não um dos outros deputados mais experientes a defender o indefensável. Contudo, também nunca vi uma posição clara sobre os temas referidos acima por parte PSD. O CDS-PP, honra lhe seja feita, já o fez. Talvez por o seu líder ser da Terceira e não ter de prestar contas a São Miguel no momento em que se recandidatar e querer renovar o seu mandato de deputado. Enquanto isso, pode-se rever o estatuto político-administrativo, o regimento da assembleia ou que quer que seja que vá servindo de entretenimento e tudo fica na mesma. Não são os papéis que fazem os sistemas, mas aquilo que se as pessoas querem fazer com eles.

Se ser bairrista é defender a sua terra, que mal há nisso? Sejamos então bairristas. Os outros, ao que se vê, não têm nenhum problema com isso.

“Young Holy Ghosters”

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São todos portugueses e jogam às cartas numa casa da George Street em Fall River. Por este detalhe arriscaria dizer que são todos micaelenses. As idades variam entre os 15 e os 25 anos e, não tivesse sido a fotografia tirada a 21 de junho, poderíamos dizer que estes jovens operários estariam a recriar a última ceia.

A fotografia, da autoria de Lewis Hine, está guardada na Biblioteca do Congresso Americano e data de 1916.

comida de encher barriga

Se isto fosse o MasterChef chamavam-lhe “confort food” ou “comida de homem”. Eu chamo-lhe “comida de encher barriga” e estou no Snack-Bar André, na rotunda de entrada para a freguesia do Cabo da Praia. Têm um buffet com feijoada de feijão (é como está no quadro negro escrito a giz), rojões, costeletas de porco, uns peixes assados e um tabuleiro com salada, para os que se acham mais saudáveis que os outros. Ainda há os acompanhamentos básicos como o arroz e as batatas fritas e cozidas, para o peixe. Decididamente, é comida daquela que nos deixa satisfeitos a pensar que o melhor vai ser não jantar nem fazer análises amanhã. É barato!

sorrisos de pedra

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Com alguma dificuldade – e muito lentamente – tenho procurado retomar alguma vida social e recuperar hábitos que, com o nascimento dos meus filhos, deixaram de o ser. Ir ao cinema, ao teatro, a conferências ou visitar exposições tornou-se uma extravagância, algo que exigia, e ainda exige, embora de uma forma mais ligeira, uma logística bem montada e oleada onde o apoio e a paciência de terceiros (particularmente os avós) são condição essencial.

Ontem fui a uma exposição, a uma conferência e assisti a uma peça de teatro. Não há fome que não dê em fartura. Reencontrei pessoas. Conheci outras. Partilhei. Mesmo que seja aquela partilha individual na plateia de um teatro onde, apesar de não falares com a pessoa que está ao teu lado, partilhas emoções, ris-te, emocionas-te e revês-te em pequenas coisas que vão acontecendo no palco.

As exposições (era um “dois em um”) foram “Sorrisos de Pedra” da escultora Helena Amaral e o respetivo registo fotográfico pelo fotógrafo Pedro Silva seguido de uma conferência promovida pela Mais Jazz Produções com a participação de Carlos Bessa (IAC), Rogério Sousa (Burra de Milho), Terry Costa (MiratecArts), Helena Amaral (escultora), Pedro Silva (fotógrafo) e moderado por Daniela Silveira (+Jazz). Isto tudo na Biblioteca Pública de Angra (eu sei que o nome oficial não é este). No Teatro Angrense, num evento promovido pelo Alpendre – Grupo de Teatro, assisti à peça “Elas Sou Eu” com um texto escrito e interpretado por Eduardo Gaspar e encenado por Hugo Sovelas.

Escrever sobre as coisas depois de elas terem acontecido não adianta muito. Já aconteceram e não podem ser vistas novamente, quando se tratam de eventos únicos como é o caso da conferência ou da peça de teatro. Mas apeteceu-me partilhar esta experiência convosco, talvez porque, para mim, foi como regressar à normalidade agora enriquecida com esse fenómeno que é a paternidade.

Tantas vezes nos isolamos e mergulhamos num mundo que se torna único e absorvente, mas, tal como aqueles seres marinhos que passam grande parte do seu teu tempo imersos nas profundezas oceânicas gozando daquela beleza que é só deles e de mais ninguém, por vezes é preciso regressar à tona de água e respirar. E que falta faz esse ar que nos enche os pulmões e nos alimenta a alma.

Os “Sorrisos de Pedra” e as fotografias de Pedro Silva vão continuar em exposição na Biblioteca de Angra até 31 de maio (as fotografias só até 28 de abril). No teatro Angrense vai haver hoje mais teatro com a peça “Gisberta” interpretada por Rita Ribeiro.

A foto foi retirada da página de Terry Costa.

homo terceirensis

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Questiono-me sobre se existe algum assunto que faça os terceirenses se revoltarem ou indignarem. A sério! Gostava de saber o que teria de acontecer para que os habitantes desta ilha partissem a loiça toda e fossem para a rua gritar palavras de ordem contra o governo, contra a câmara, contra o que quer que fosse. Não sei. E não me venham dizer que o povo está adormecido e desligado da realidade. Não é verdade. Todos os dias se ouvem queixas e reclamações. É raro o momento em que, falando com um dos de cá, ele não aponte defeitos a isto ou àquilo, não mande palpite sobre tudo o que se mexa e critique o Manuel, o Joaquim ou a Maria por ter sido escolhido para o cargo A, o lugar B ou o tacho C. Estão informados. Sabem exatamente quem foi para onde e quem o nomeou para quê e o pôs lá. Tal pena eu não ser amigo dele.

Queixam-se do preço da água, da luz e da falta de trabalho. Queixam-se da escola e da qualidade dos professores e desculpam os alunos. Queixam-se dos médicos e do mau serviço do hospital e do tempo que esperam por uma consulta. Queixam-se da falta de estacionamento e do excessivo zelo dos fiscais dos parquímetros. Queixam-se da polícia e temem os ladrões. Queixam-se dos engenheiros, dos empreiteiros e dos arquitetos. Queixam-se do excesso de toiradas à corda e da fatalidade de não haver nenhuma na sua rua. Queixam-se da SATA, da Ryanair e dos atrasos dos aviões. Queixam-se da centralidade de São Miguel e da inexistência da Zara na Terceira. Queixam-se da chuva porque é inverno e do sol porque é verão. Queixam-se da areia que está suja e da água do mar que não aqueceu. Queixam-se dos americanos que fazem muito barulho nas esplanadas e do silêncio que deixaram. Queixam-se da água contaminada e dos que dizem que não está. Queixam-se da sua própria existência, mas não procuram mudar de vida.

O homo terceirensis é uma espécie única. Vai para onde o levam. Reclama em surdina, mas não se queixa em público. Gosta de parecer que se diverte muito e que a sua vida é uma festa permanente. Excita-se ao ouvir os outros dizerem que é assim. Gostava que assim fosse. Mas será que é mesmo? Não será esta imagem de folião e bon vivant a capa por detrás da qual se esconde um ser que perdeu a capacidade de lutar, de se indignar e de reivindicar direitos e assumir deveres? Tornámo-nos dependentes. Aceitámos de bom grado que alguém pensasse por nós e orientasse as nossas vidas. É mais simples. Tornámo-nos um ser facilmente manipulável e passámos a acreditar naquilo que os outros querem que acreditemos.

Numa terra que apesar de ter vencido o absolutismo há pouco menos de dois séculos, entusiasmámo-nos com a possibilidade de pertencer à nova aristocracia criada como corte de sustentação do poder. Uma aristocracia com privilégios alargados e que terá sido a única que ainda não percebeu que houve uma crise económica, financeira e social profunda e que, independentemente do discurso oficial, ainda não passou ou que ainda estamos muito longe de sermos como estávamos antes. Dai-lhes bolos, diria Maria Antonieta. Dai-lhes brioches, teria dito ela numa outra versão. Dai-lhes qualquer migalha, diria ela se vivesse em 2018.

Perante isto tudo, calamo-nos, aceitamos e ficamos satisfeitos com o sucesso dos outros e a condenação dos maus do BES, da Operação Marquês ou de outra coisa qualquer, mas lá fora. Está tudo bem e o Espírito Santo vem aí. Podia ser pior. Parece que já começo a ouvir foguetes.

Artigo publicado na edição de hoje do Diário Insular.

meio caminho andado

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A minha atividade profissional leva-me a encontrar pequenos tesouros escondidos nas habitações e edifícios de comércio um pouco por toda a ilha Terceira. Registo alguns deles que guardo para memória futura. Uns por interesse profissional, o trabalho realizado a isso obriga, outros pelo simples interesse pessoal que um recanto ou um pormenor conseguem transmitir.

A fotografia que aqui apresento retrata um recanto do escritório de um estabelecimento comercial, outrora pujante e bem-sucedido, e que hoje se encontra encerrado. Este recanto já não existe. Não existem os livros, as capas cheias de documentos amarelecidos e cobertas de pó, não existem as caixas de cartão dos CTT apensas com o autocolante vermelho de quando o “código postal” era meio caminho andado. Não existem as pessoas que ali se sentavam horas a fio a furar papéis, a registarem o deve e o haver e atualizarem o extenso rol dos fiados que acabariam por ser a sua desgraça.

Em breve, este espaço comercial reabrirá as portas com novos proprietários e um novo conceito de negócio. A relembrar os tempos antigos ficarão fotografias como esta e as memórias de quem por lá passou.

onde vamos jantar?

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Daqui por uns dias faço anos. Ainda bem. A alternativa seria bem pior. São 47 e, este ano, queria fazer uma coisa diferente com os amigos e a família. Habitualmente comemoro-os em casa com os do costume e ofereço-lhes um jantar que tem sido confecionado por nós. Dá uma trabalheira desgraçada e este tem sido um ano em que o tempo escasseia e a necessidade de descanso torna-se premente. Quero levá-los a jantar fora. Mas queria fugir do circuito gastronómico habitual nestas situações. Não sei onde. Aceito sugestões!

A fotografia foi retirada do blogue O Rouxinol dos Pomares.

café da manhã

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Desde que os miúdos mudaram de colégio as rotinas matinais também sofreram alterações. Agora, com alguma frequência, a paragem para o café é feita na Padaria do Juncal onde posso comer um pão de batata doce ou um pão de abóbora e ficar com pena de não poder comer mais. Infelizmente, hoje não havia. É pena. Foi a primeira vez que aconteceu.

Optei, então, por um croissant e, por momentos, esqueci-me que estava na Terceira. Não é fácil encontrá-los cá na terra com aquela qualidade. São mesmo bons. A montra de bolos é variada e apelativa. Não estivesse eu de dieta para compensar a Francesinha de ontem ao jantar, ter-me-ia empanturrado com alguns deles.

Só tenho pena de uma coisa na Pradaria do Juncal. Não tem colheres para o café. O açúcar tem de ser mexido com aquelas palhetas de plástico que nem barulho fazem quando tocam na chávena.

made in azores

O Made in Azores lançou no início do mês um projeto onde, a partir de vídeos de curta duração, apresenta música e literatura açoriana com o objetivo de as promover.

De entre os minifilmes já exibidos na página do projeto, escolhi este onde o Luís Brum, um artista plástico terceirense, lê o poema Ancoradouro de Palavras da autoria de outro terceirense, o poeta Rui Duarte Rodrigues.